9. Olhar para fora

Lourdes Castro, Comedor, 1961, Museu do Chiado

O início da década de cinquenta foi um período ingrato para os artistas sem ligações ao regime. Terminadas as exposições oficiais (S.P.N./S.N.I.) em 1951, sem compradores que garantissem a sustentabilidade dos expositores das Exposições Gerais de Artes Plásticas, que terminariam em 1956 e sem um mercado autónomo — que não chegou, sequer, para manter em funcionamento a experiência da Galeria de Março, aberta entre 1952 e 1954 — os artistas enfrentaram um breve período de desamparo profissional que, ainda assim, não comprometeu o aprofundamento de inovadoras experiências no domínio estético.

A segunda metade da década viu surgir a Fundação Calouste Gulbenkian que viria a ter, logo nesse momento e nas décadas seguintes, um papel insubstituível no apoio à arte contemporânea e aos artistas e foi determinante para uma certa revolução a que se assistiu na década de 60. Quatro factores foram fulcrais na sua actuação: a organização das Exposições de Artes Plásticas, que, apesar da criticada abertura na escolha dos artistas — que incluía uma grande quantidade de académicos de trabalho anacrónico — permitiu mostrar e premiar uma nova geração cujo trabalho se distinguia; o início da publicação da revista Colóquio em 1959, que permitiu a abertura de horizontes estéticos e a maturação da reflexão crítica; a aquisição regular de obras a artistas contemporâneos para a criação de uma colecção, que se desdobraria pouco depois em proveitosas itinerâncias, pelo país e pelo estrangeiro e, provavelmente o mais importante dos quatro, a criação de bolsas de estudo e de aperfeiçoamento que, a partir de 1957 levaram inúmeros artistas a estadias proveitosas no estrangeiro.

O alargamento de horizontes foi o factor mais relevante da década de sessenta, mudaria irreversivelmente o panorama artístico nacional, mesmo que uma parte considerável dos artistas tenha optado por permanecer no estrangeiro findas as bolsas. A maioria dos pedidos de bolsa destinou-se a Paris, reforçando uma tradição que vinha de Novecentos, mas a perda de centralidade artística da capital francesa, desencadeada pela fuga de talentos originada pela segunda guerra mundial, levou a que alguns artistas optassem por procurar formação em Londres e em Nova Iorque.

Jorge Pinheiro
Sem título, 1968
Óleo sobre madeira, Colecção Gulbenkian
Jorge Pinheiro
Sem título 1968
Óleo sobre madeira, Colecção da Fundação de Serralves
Jorge Pinheiro
Sem título, 1968
Tinta industrial sobre madeira, Colecção da Fundação de Serralves
João Vieira
Uma Rosa É, 1968
Óleo sobre tela, Colecção Gulbenkian
Costa Pinheiro
Homenagem a Malevitch, 1967
Óleo sobre tela, Colecção Gulbenkian
Costa Pinheiro
Do Sofrimento, 1960
Óleo sobre tela, Colecção Gulbenkian
Paula Rego
S. Vomiting the Pátria 1960
Óleo sobre tela, Colecção Gulbenkian
Paula Rego
Stray Dogs (The Dogs of Barcelona), 1965
Óleo sobre tela, Colecção João Rendeiro (paradeiro desconhecido)
Júlio Pomar
Cegos de Madrid,  1957
Óleo sobre tela, Colecção Gulbenkian
Waldemar d’Orey
Mobile 1964
Aço e madeira pintada
Lourdes Castro
Caixa madeira 1963
Madeira, Tinta e Assemblage, Colecção Gulbenkian
Lourdes Castro
Caixa Alumínio (lagostins) 1962
Técnica mista, Colecção Caixa Geral de Depósitos
Lourdes Castro
Sombras deitadas, 1969
Lençol bordado à mão, Museu do Chiado
Lourdes Castro
Comedor 1961
Assemblagem de objectos com pintura a alumínio, Museu do Chiado
Lourdes Castro
In the Café, 1964
Plexiglass, Madeira e Acrílico, Tinta acrílica, Colecção Gulbenkian
René Bertholo
Nuvem com Superfície Variável – III, 1967
Alumínio, Programador e Motor, Alumínio pintado, Colecção Gulbenkian
René Bertholo
Palmeira, 1966
Alumínio pintado, ventoinha elétrica, Serralves
José Escada
S/Título (Relevo Espacial) 1974
Madeira, Chapa de ferro recortada, Colecção Gulbenkian