«Nossa pintura tem de ser útil, servir os homens, tratar os seus problemas que há tanto gritam por resolução…
Façamos pintura para todos, que todos nos olhem como homens. É este nosso dever.»
Vespeira, Aos pintores portugueses — carta aberta, A Tarde, 4/8/1945

A arte europeia de entre guerras ficou marcada por um retorno à ordem e pelo ressurgir de realismos que, até certo ponto, satisfaziam as ditaduras que governavam quase todo o continente. Foi uma reacção às vanguardas radicais do princípio do século, mas a motivação ia além da dimensão plástica, e assentava no desejo generalizado de reagrupamento e reorganização social após a destruição causada pela primeira guerra.
Em Portugal, o surgimento do Neo-Realismo nas artes visuais teve um motor diferente. As vanguardas nunca chegaram a instalar-se verdadeiramente, pelo que nunca se perdeu uma certa ordem, e a ignição foi feita através da consciência política que mobilizou os artistas na solidarização com o povo explorado e oprimido pelo fascismo.
Depois de uma firme implementação na literatura, já depois da segunda guerra, o Neo-Realismo começou a ganhar consistência de movimento quando um conjunto de jovens artistas se instalou na imprensa de esquerda, publicando regularmente textos que foram construindo e clarificando a ideologia do movimento.
O Neo-Realismo tinha pouco em comum com os realismos oitocentistas. Embora ambos tenham elegido motivos ligados à dureza da vida, o Neo-Realismo reclamava para a arte uma acção transformadora, não só na chamada de atenção para os problemas, mas, especialmente, na contribuição para que a revolução social elevasse o povo a uma condição a que nunca havia chegado. Dois vectores afiguraram-se de capital importância: por um lado, era importante concretizar todo o potencial denunciador a que as obras podiam aspirar, e isso dependia apenas dos artistas, que fizeram o que estava ao seu alcance, por outro, defendiam a necessidade de democratizar o acesso à arte que, até então, era prerrogativa exclusiva das classes superiores. A concretização deste objectivo ultrapassava em grande medida as possibilidades reais dos jovens. Se o seu sonho de reproduzir entre nós os grandes programas de pintura mural americanos encontraram obstáculo no regime, que reservou para obras de cariz propagandístico as paredes dos edifícios públicos, a ilustração de livros e as edições de múltiplos de gravura foram o veículo possível para fazer chegar as imagens neo-realistas a um público vasto e de menor poder económico.