6. Neo-Realismo

«Nossa pintura tem de ser útil, servir os homens, tratar os seus problemas que há tanto gritam por resolução…

Façamos pintura para todos, que todos nos olhem como homens. É este nosso dever.»

Vespeira, Aos pintores portugueses — carta aberta, A Tarde, 4/8/1945
Manuel Filipe, O homem e a máquina, 1943, Colecção Gulbenkian

A arte europeia de entre guerras ficou marcada por um retorno à ordem e pelo ressurgir de realismos que, até certo ponto, satisfaziam as ditaduras que governavam quase todo o continente. Foi uma reacção às vanguardas radicais do princípio do século, mas a motivação ia além da dimensão plástica, e assentava no desejo generalizado de reagrupamento e reorganização social após a destruição causada pela primeira guerra.

Em Portugal, o surgimento do Neo-Realismo nas artes visuais teve um motor diferente. As vanguardas nunca chegaram a instalar-se verdadeiramente, pelo que nunca se perdeu uma certa ordem, e a ignição foi feita através da consciência política que mobilizou os artistas na solidarização com o povo explorado e oprimido pelo fascismo.

Depois de uma firme implementação na literatura, já depois da segunda guerra, o Neo-Realismo começou a ganhar consistência de movimento quando um conjunto de jovens artistas se instalou na imprensa de esquerda, publicando regularmente textos que foram construindo e clarificando a ideologia do movimento.

O Neo-Realismo tinha pouco em comum com os realismos oitocentistas. Embora ambos tenham elegido motivos ligados à dureza da vida, o Neo-Realismo reclamava para a arte uma acção transformadora, não só na chamada de atenção para os problemas, mas, especialmente, na contribuição para que a revolução social elevasse o povo a uma condição a que nunca havia chegado. Dois vectores afiguraram-se de capital importância: por um lado, era importante concretizar todo o potencial denunciador a que as obras podiam aspirar, e isso dependia apenas dos artistas, que fizeram o que estava ao seu alcance, por outro, defendiam a necessidade de democratizar o acesso à arte que, até então, era prerrogativa exclusiva das classes superiores. A concretização deste objectivo ultrapassava em grande medida as possibilidades reais dos jovens. Se o seu sonho de reproduzir entre nós os grandes programas de pintura mural americanos encontraram obstáculo no regime, que reservou para obras de cariz propagandístico as paredes dos edifícios públicos, a ilustração de livros e as edições de múltiplos de gravura foram o veículo possível para fazer chegar as imagens neo-realistas a um público vasto e de menor poder económico.

Marcelino Vespeira
Apertado pela fome, 1945
Óleo sobre tela, Colecção Gulbenkian
Manuel Filipe
O homem e a máquina, 1943
Mina negra sobre papel, Colecção Gulbenkian
Manuel Filipe
O homem e a máquina, 1943
Mina negra sobre papel, Colecção Gulbenkian
Júlio Pomar
Gadanheiro, 1945
Óleo sobre aglomerado de madeira, Museu do Chiado
Júlio Pomar
Almoço do Trolha, 1946-50
Óleo sobre tela, Colecção Manuel de Brito
Júlio Pomar
Resistência, 1946
Óleo sobre aglomerado, Colecção do Museu de Lisboa em depósito na Fundação Júlio Pomar
Lima de Freitas
Sem título, 1946
Pastel e Carvão sobre papel, Colecção Gulbenkian
Cipriano Dourado
Sem título, 1947
Lápis litográfico sobre papel, Colecção Gulbenkian
Augusto Gomes
A carta, 1953
Óleo sobre cartão, Colecção Gulbenkian
Augusto Gomes
Sem título, 1953
Tinta-da-china e grafite sobre papel, Colecção Gulbenkian
Manuel Ribeiro de Pavia
Ilustrações para uma edição especial do livro Fanga, de Alves Redol (nunca publicada)
Colecção particular
Manuel Ribeiro de Pavia
Capa do livro Gaibéus, de Alves Redol, 1939
Manuel Ribeiro de Pavia
Capa do livro Vila Adormecida, de Antunes da Silva, 1947