
1983 marca, mais do que simbolicamente, o início de uma nova era na arte em Portugal. A inauguração do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, que veio colmatar a antiga e muito sentida falta de um museu de arte moderna em Portugal, e a exposição Depois do Modernismo, que teve o mérito de criar um consenso generalizado sobre a liberdade e a diversidade das expressões individuais, definitivamente libertas das narrativas dos modernismos e das vanguardas, cerziram um tecido artístico-social e legitimaram uma miríade de práticas que, no seu conjunto, tinham apenas em comum uma ânsia de liberdade que se coadunava com a euforia de crescimento económico que animava o país.
A segunda metade da década viu nascer inúmeros espaços de exposição dedicados à produção contemporânea, destacando-se o trabalho de Luís Serpa que, na continuidade da exposição Depois do Modernismo cria a galeria Cómicos, comprometida com os artistas mais arrojados do nosso panorama e trazendo a Portugal artistas estrangeiros de relevo, e culminando em 1989 com a Fundação de Serralves, estatutariamente comprometida a erigir um museu de referência e a contribuir com empenho para o alargamento da colecção do Estado.
A encomenda pública também foi um factor dinamizador desta época. O projecto mais visível e ambicioso partiu do Metropolitano de Lisboa, que incluiu um ambicioso programa decorativo, tanto das das novas estações que marcavam a expansão da rede, como da remodelação que foi levada a cabo nas estações originais, mas muitas câmaras municipais seguiram o exemplo de Lisboa e criaram encomendas relevantes para obras no espaço público.
Do ponto de vista estético, o principal traço deste tempo é precisamente a ausência de unidade. A arte em Portugal libertou-se definitivamente dos espartilhos estilísticos e mesmo os grupos organizados que surgiram, como os Homeostéticos, caracterizavam-se pela liberdade individual, por uma partilha de princípios abstractos que de modo nenhum se reflectiam em unidade plástica.