
A década de 1970 levou ao extremo a radicalização das experiências e o aspecto onde isso se fez sentir com maior intensidade foi a materialidade das obras. O crescimento da respeitabilidade da fotografia que, por esse tempo, passar a ser tida em conta como medium artístico de pelo direito, o mesmo acontecendo com o filme, primeiro com as manejáveis câmaras de película de 8mm e, depois, com a popularização do vídeo (que, apesar de tudo, tardaria a implantar-se em Portugal), abriu a possibilidade de prolongar no tempo acontecimentos que, de outro modo, não conseguiriam ultrapassar a efemeridade e acabariam por ser pouco consequentes e, ainda menos, conhecidos. Este novo paradigma tecnológico desencadeou a proliferação de obras desmaterializadas que, assim, garantiam a permanência e a continuidade através do registo e da sua disseminação. Happenings e performances, frequentemente no espaço público ou em localizações inusitadas, atraíram os artistas menos acomodados e implicaram o público de uma forma directa, como até então não tinha acontecido. Muitas vezes a destruição das obras fazia parte do projecto e acabavam por sobreviver apenas em registo.
Foi neste ambiente que se concretizou o desejo, muitas vezes expresso já desde década anterior, de estabelecer uma relação profunda e intensa entre a arte e a vida, uma relação que, na sua plenitude teria por consequência a reconfiguração dos lugares de cada um dos intervenientes, passando a conferir ao artista um papel mais interventivo na sociedade.
A década de 70 fica marcada pelo papel dinamizador e aglutinador de Ernesto de Sousa que, para além de muitas outras iniciativas de menor dimensão, mas não menor importância, organizou a exposição Do vazio à pró-vocação, em 1971, e aquela que viria a ser a mais disruptiva e marcante exposição da arte portuguesa, a Alternativa Zero, em 1977. Estas iniciativas representaram o apogeu de um movimento colectivo na arte portuguesa e alargaram, não só o universo do público, mas, especialmente, as modalidades da sua entrega à fruição artística.